Iniciativas e novidades em sustentabilidade que devemos acompanhar a partir do próximo ano.

As preocupações com sustentabilidade vinham crescendo desde a última década, com as energias renováveis se tornando uma realidade em todo o mundo, e em particular na quase totalidade dos países desenvolvidos. Essa atenção, no entanto, cresceu exponencialmente durante a pandemia da COVID-19, e tende a se cristalizar mesmo com o tão aguardado fim da crise sanitária. A seguir, mostraremos algumas iniciativas que tendem a se tornar tendência em 2022, nos negócios, governos e na sociedade toda. 

1. A energia limpa vai se tornar mandatória

As mudanças climáticas, devidamente alardeadas pelos cientistas, e inicialmente ignoradas por governos e pelo mercado, se mostraram presentes através de eventos climáticos cada vez mais extremos e frequentes nos últimos anos. A pressão por mudanças nas políticas de emissões de gases do efeito estufa já vem de algum tempo, e os países entenderam sua urgência, assim como o mercado entendeu os benefícios econômico-financeiros de algo inevitável, enxergado anteriormente como simplesmente custo. A partir dos compromissos internacionais assumidos pelos governos das principais economias do mundo, em conjunto com a ONU, a demanda por energia de fontes renováveis vai crescer em um ritmo forte nos próximos anos (espera-se um crescimento de 30% até 2025, no Brasil), repetindo o desempenho dos últimos anos, segundo relatório da Agência Internacional de Energia. 

O crescimento das fontes renováveis, em especial energia solar fotovoltaica e eólica, se deveu, entre vários fatores, à uma queda considerável do custo de sua implantação, num ciclo virtuoso de crescente demanda x queda do preço. A partir de 2022, esse custo tende a cair num ritmo mais acelerado. Em comparação, a energia solar já é mais barata que energia proveniente da queima do carvão, por exemplo. À medida que os principais países consumidores, em especial Estados Unidos e China, incentivam o uso de energias renováveis em detrimento de combustíveis fósseis, o preço delas tende a cair, primeiro pelo fator da escala, e em segundo lugar pelas medidas governamentais de incentivo e de restrição/exigências de compensação da extração e queima de combustíveis fósseis. 

2. Consumo sustentável se tornará o padrão 

A preocupação da Geração Z com questões ambientais, como mudanças climáticas e perda da biodiversidade, por exemplo, se tornou o motor do consumo sustentável contemporâneo. Essa geração, mais do que qualquer uma antes dela, entendeu seu papel e responsabilidade em tentar resolver problemas globais com ações locais. 

Produtos sustentáveis, muito mais do que uma tendência atual do mercado, se tornarão o padrão de consumo em um futuro muito próximo. A tendência é que oconsumo responsável e sustentável dite as regras do padrão de consumo, à medida que a Geração Z ingressa no mercado de trabalho e aumenta seu poder de compra. Pesquisas recentes mostram que mais da metade dos adultos com 30 anos ou menos consideram os esforços ambientais e sociais de uma empresa extremamente importantes na sua decisão de compra. 

Empresas que querem cativar esse público consumidor devem se tornar sustentáveis e ambientalmente responsáveis o quanto antes. Alguns tipos de bens de consumo vão guiar a tendência sustentável em 2022: 

Alimentação 

A produção atual de alimentos é responsável por um quarto do total de emissões dos gases de efeito estufa no mundo. Além disso, responde por grande parte da perda de biodiversidade causada pelo desmatamento e destruição de habitats naturais. A indústria de alimentos consome grande parte da água potável disponível hoje, usada majoritariamente na produção de proteína de origem animal. 

Conscientes dessa situação, consumidores mais engajados têm fortalecido a tendência do consumo de alimentos mais sustentáveis, dado o crescimento do veganismo e outras dietas à base de plantas. O consumo de carne vegetal e de alimentos alternativos aos laticínios cresceu consideravelmente durante a pandemia. Algumas pesquisas apontam um crescimento de 140% do consumo de carne vegetal, somente nos Estados Unidos. Grandes redes de fast-food já oferecem sanduíches feitos com hambúrguer digital, por exemplo. A Unilever, uma das gigantes do setor de alimentos, prevê um crescimento na venda de produtos como carne e leite vegetais da ordem de um bilhão de euros nos próximos cinco a sete anos. 

Outras formas de consumo sustentável de comida são o movimento slow food, que prega uma relação mais saudável com a alimentação e dá importância ao pequeno produtor e ao modo como os alimentos são produzidos até chegar às nossas mesas, e o movimento “ugly food” que defende o consumo de vegetais considerados “impróprios” para consumo de acordo somente com a aus aparência. Esse comportamento, tão enraizado em nossa cultura, contribui com o desperdício de alimentos, que é da ordem de mais de um bilhão de toneladas ao ano. 

Moda 

As principais marcas de roupas vêm se preocupando cada vez mais com questões de sustentabilidade. Pesquisas mostram que mais de um terço dos consumidores trocam de marca para uma que tenha melhores práticas ambientais e sociais. Não basta apenas parecer preocupado com tais questões. As redes sociais são uma vitrine poderosa para marcas de consumo, mas podem também acabar com sua reputação, com revelação de casos de assédio moral e desrespeito às leis trabalhistas e ambientais. 

Modo de vida 

Seja com o advento de carros elétricos, seja com a oferta de serviços digitais (para reduzir ou eliminar o consumo de papel), a demanda por uma maior sustentabilidade atingirá todo o mercado consumidor. Logística reversa e economia circular são tendências que num futuro muito próximo se tornarão uma realidade difícil de escapar. São mudanças de pensamento extremamente necessárias em um mundo de constante transformação. 

3. ESG vai se tornar a bússola das organizações 

Os investimentos em sustentabilidade estão em uma tendência de forte aumento, e vão se tornar institucionais com a adoção de ESG por parte de organizações ao redor do mundo. Muitos fundos de investimento já mostram preferência por empresas que detêm o conceito já implementado aos seus processos internos, com práticas de governança e aplicação de regras claras de compliance, e operacionalização de questões ambientais como logística reversa e adoção de energia renovável. 

4. Compensações de Carbono e o próximo passo: Climate Positive 

Tema recorrente em círculos de sustentabilidade, as compensações de carbono removem gases do efeito estufa, como gás carbônico, da atmosfera, e ocorrem através de financiamento de projetos de captura por empresas e organizações que precisam reduzir sua pegada ambiental. Muitas vezes vista como “greenwashing”, a iniciativa de compensações de carbono vem sendo adotada por empresas como a JBS com um compromisso sério em reduzir seu impacto ambiental, além de melhorar sua imagem institucional. 

Assim que projetos mais robustos e confiáveis forem sendo criados, essa desconfiança tende a diminuir, o que vai contribuir com que as empresas dêem um passo adiante, rumo ao “Climate Positive”, termo criado para designar as iniciativas que vão além de compensar carbono, mas sim garantir a mitigação da emissão dos gases de efeito estufa. Empresas como a Suzano já adotam o compromisso de capturar bilhões de toneladas de carbono nas próximas décadas. 

5. Transparência é parte essencial do jogo 

Cada vez mais, governos e sociedade vão exigir transparência das organizações. A tendência é que as empresas sejam obrigadas a declarar aos seus consumidores todo o impacto ambiental, em especial mudanças climáticas, que seus produtos e processo produtivo causam. Iniciativas de compensação de carbono já não são um diferencial, se tornarão uma exigência, se não ainda de governos, mas de organizações certificadoras e da sociedade civil organizada. A implantação de sistemas ESG visa, em parte, satisfazer essa necessidade. 

6. Companhias pensam no lucro, mas têm que olhar ao redor

O objetivo primordial de uma companhia é dar lucro a seus investidores e acionistas. A tendência, porém, é que essa preocupação esteja alinhada com práticas sustentáveis. As pessoas se tornaram mais conscientes dos efeitos das mudanças climáticas, e pretendem adotar hábitos de sustentabilidade daqui para frente. Isso significa que clientes, investidores e trabalhadores serão ainda mais criteriosos ao analisar os esforços ambientais e sociais das empresas antes de manter relações comerciais com elas. O lucro deve estar acompanhado do interesse de atender às necessidades de consumidores, trabalhadores e da comunidade onde a empresa está inserida. Pensar, planejar e criar um futuro sustentável é maximizar os benefícios para muito além do lucro. 

7. Mude. Ou sofra as consequências. 

Empresas que não apresentarem um bom desempenho sócio-ambiental, tendem a sofrer maiores sanções do governo ou mesmo boicote de mercados consumidores locais e internacionais. Proposições de greenwashing serão cada vez menos toleradas pela sociedade. Num mundo globalizado e cada vez mais conectado, ações que têm mais efeito na propaganda do que mudanças reais serão desmascaradas e rechaçadas. As ações de sustentabilidade devem englobar toda a cadeia de produção e logística das empresas, desde o pequeno fornecedor até as concessionárias de energia elétrica. Ao comprar energia limpa, as empresas também forçarão as distribuidoras a mudar sua matriz e se adaptar à demanda sustentável, por meio de redes de distribuição mais inteligentes e conectadas (smart grid), redes de minigeração distribuída e de armazenamento de energia. 

8. Ciência de dados e sustentabilidade 

Medir a efetividade das ações de sustentabilidade é um grande desafio para as organizações. Os tomadores de decisão esperam contar com uma base de dados confiável para analisar o desempenho dos seus projetos de ESG. Não basta assimilar os conceitos de sustentabilidade, espera-se que as lideranças possam agir e executar projetos baseados em big data. A multinacional italiana Pirelli, por exemplo, está usando as informações coletadas de sensores em seus pneus para melhorar sua logística e produção. 

9. Um ar limpo é primordial 

Nos últimos dois anos, o noticiário foi tomado por imagens de paisagens urbanas tomadas pela poluição do ar, com fumaça proveniente de queimadas encobrindo a luz do sol ou mesmo um entardecer em tons de laranja apocalíptico, provocado pelo acúmulo de gases tóxicos na atmosfera. Problemas respiratórios são a maior causa de internações e o custo anual com tratamento chega a centenas de bilhões de dólares. Doenças transmitidas pelo ar, como a COVID-19, mostram a necessidade de termos um ar limpo e puro nos ambientes urbanos. O controle de emissões, seja por veículos de transporte, seja por indústrias, será cada vez mais rigoroso. 

10. O home office chegou com tudo. E não vai embora.

Embora já existisse antes do ano passado, a epidemia da COVID-19 forçou várias empresas, sobretudo as de tecnologia, a implantarem o home office para não parar suas operações. A iniciativa se mostrou um passo certo de sustentabilidade, pois reduziu drasticamente a demanda por transportes que se utilizam de combustíveis fósseis para a locomoção de milhões de pessoas diariamente. O home office fez reduzir também o consumo de energia elétrica das empresas, diminuindo a pressão por energia oriunda de matrizes térmicas, que emitem gases de efeito estufa. De olho nessa economia, grandes empresas de tecnologia, como Twitter, Shopify e outras, se comprometeram a manter seus funcionários em home office por tempo integral, mesmo após o fim da pandemia. Essa mudança, porém, demandará uma infraestrutura de dados e internet muito mais capilarizada e estável do que temos atualmente.