O excesso de plásticos nos oceanos é um assunto bastante debatido e um dos maiores argumentos dos ambientalistas que se posicionam contra esse material. No entanto, os plásticos provenientes de embalagens e outros produtos não são exatamente os maiores vilões da poluição marinha.

Feito pelo cineasta Ali Tabrizi, o documentário Seaspiracy (atualmente disponível na Netflix) traz dados e discussões sobre o assunto e aponta para um agente responsável pelo maior volume de poluição nos oceanos: a pesca industrial.

Os dados apresentados no documentário esclarecem como a responsabilidade pelo problema é injustamente colocada sobre os consumidores comuns. De acordo com o filme, os canudos plásticos representam apenas 0,03% do plástico jogado no oceano, enquanto 46% do lixo plástico é formado por redes de pesca.

Apesar da imagem chocante que rodou o mundo, de uma tartaruga marinha com um canudo plástico enfiado na narina, essa ocorrência é bastante isolada se considerarmos todo o prejuízo que o lixo formado pelos equipamentos de pesca industriais representa.

Captura acidental e morte de diversas espécies marinhas

Na indústria pesqueira, por lidar com métodos para a coleta de peixes em enormes volumes, o bycatch acaba sendo algo muito comum. Esse termo pode ser compreendido como “captura acidental”, e indica todas as espécies marinhas coletadas acidentalmente durante a pesca que tem como alvo outros animais. Por ano, mais de 300 mil baleias e golfinhos são mortos pela captura acidental.

Além disso, o volume de peixes coletados pela pesca industrial nem sempre é completamente aproveitado para comercialização. O filme mostra que 40% do pescado não interessa comercialmente e acaba sendo descartado, o que certamente tem um impacto bastante negativo e preocupante à natureza. Ao assistir o documentário, somos expostos a cenas bastante chocantes dessa prática.

As empresas que se posicionam como optantes pela pesca sustentável também não fogem da investigação realizada por Tabrizi. De acordo com depoimentos dos representantes dessas empresas, não há como garantir que nenhum golfinho seja morto durante a pesca, o que coloca em cheque o selo de sustentabilidade colocado nas embalagens das marcas envolvidas. Afinal, seria apenas mais uma estratégia de marketing para alcançar consumidores mais preocupados com a preservação da natureza?

Como resolver a poluição nos oceanos?

A solução para o problema, de acordo com o Seaspiracy, é a adoção de uma dieta livre de peixe pela população. Assim, extingue-se a demanda por esse alimento, o que retardaria e, com o passar do tempo, eliminaria as atividades de pesca industrial. Mas será que essa é realmente a melhor solução? Esse alimento não é essencial para a saúde humana ou pode ser substituído? Há alternativas para que a pesca seja feita de maneira mais consciente, a fim de atender às necessidades, sem desperdício e, principalmente, sem que represente uma poluição tão massiva aos oceanos? Essas são questões que precisam ser pensadas e discutidas.

O documentário mostra fatos importantes e leva a questionamentos, mas deixa uma verdade bastante evidente. O principal culpado pela poluição das águas não são os plásticos que usamos para consumo. Com a conscientização sobre a reciclagem e a aplicação da economia circular, essa parcela fica ainda menor.

Ter essa clareza é essencial para que medidas adequadas sejam tomadas, no lugar de uma campanha que parece apontar para uma solução que apenas soa eficiente, quando na verdade, resolve apenas uma porcentagem bastante pequena do problema.

Fontes:

https://routebrasil.org/2021/04/13/seaspiracy-a-industria-pesqueira-e-seu-impacto-nos-oceanos/

https://grupocataratas.com/pesca-industrial-a-maior-ameaca-a-vida-marinha-e-humana/

https://marsemfim.com.br/industria-pesqueira-mundial-e-10-do-plastico-nos-oceanos/

https://braziljournal.com/seaspiracy-o-documentario-que-vai-mudar-sua-relacao-com-o-sushi/

https://www.seaspiracy.org/facts